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Atletas de jiu-jitsu de kimono treinando no tatame. Peterson Mendes, nutricionista esportivo na Barra da Tijuca

No esporte de luta existe um ditado que todo atleta conhece: a primeira luta é contra a balança. Semana de campeonato chega e a cena se repete em qualquer academia: atleta rodando de casaco no calor, cuspindo em garrafinha, jantando alface. O corte de peso virou quase um ritual, e é impressionante como um ritual tão comum é feito de um jeito tão errado.

Eu atendo lutadores de jiu-jitsu e MMA no consultório e já conduzi corte de peso de atleta profissional. O que separa um corte que chega inteiro na luta de um corte que entrega a luta de bandeja tem nome: planejamento. Neste artigo eu explico como o corte funciona, onde a maioria erra e o método em duas fases que eu uso na prática.

Quase todo lutador corta peso (e quase todo corte é maior do que devia)

Os números são grandes. Num estudo com atletas de MMA publicado em 2019 no International Journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism, mais de 90% dos lutadores relataram cortar peso pra competir, com cortes médios na faixa de 7 a 8% do peso corporal. Pra um atleta de 80kg, isso significa perder 6kg ou mais na reta final.

E aqui entra uma diferença que muda tudo: a pesagem. No MMA profissional costuma haver 24 horas ou mais entre a balança e a luta, tempo pra recuperar boa parte do que saiu. No jiu-jitsu da IBJJF a pesagem é minutos antes da primeira luta, de kimono, sem tempo nenhum. Quem copia o corte agressivo do MMA num campeonato de jiu-jitsu sobe no tatame vazio.

O erro que entrega a luta: deixar tudo pra última semana

Perder só 2% do peso em água já é suficiente pra derrubar o rendimento. A revisão de Franchini, Brito e Artioli, publicada em 2012 no Journal of the International Society of Sports Nutrition, mostra o pacote completo da desidratação aguda: queda na resistência, no desempenho aeróbio, na força e na função cognitiva, com aumento de risco pra saúde de brinde. Traduzindo pro tatame: menos gás, menos pegada e decisão pior, exatamente as três coisas que definem uma luta.

O detalhe cruel é que a recuperação nem sempre devolve o que o corte tirou. Dependendo do tamanho do corte e do tempo até a luta, o atleta bate o peso na balança e luta a 80% da própria capacidade. Venceu a balança, perdeu a luta.

O corte bem feito tem duas fases

Fase 1: perder gordura de verdade, com semanas de antecedência. Déficit calórico moderado, proteína alta e treino mantido. Essa conta precisa de número, e é pra isso que servem duas ferramentas gratuitas aqui do site: a calculadora de gasto calórico, que mostra quanto você gasta por dia, e a calculadora de percentual de gordura, que mostra quanto dá pra descer sem sacrificar músculo. Ritmo seguro: de 0,5 a 1% do peso por semana.

Fase 2: o ajuste fino dos últimos 5 a 7 dias, e só pra quem tem tempo de recuperação depois da balança. As estratégias descritas por Reale, Slater e Burke em 2017 trabalham quatro alavancas: água, sódio, carboidrato e resíduo intestinal. Uma dieta de baixo resíduo, por exemplo, tira perto de 1kg só de conteúdo intestinal, sem desidratar nada. A manipulação de água e de glicogênio completa o resto, cada uma com seu protocolo e seu tempo certo.

Regra de bolso que uso com meus atletas: com 24 horas ou mais até a luta, um corte agudo de até uns 5% do peso é administrável. Com pesagem na hora, caso do jiu-jitsu, o espaço é mínimo: o certo é treinar o campeonato inteiro perto do peso e usar só o ajuste de resíduo e de retenção dos últimos dias.

Da balança pra luta: a recuperação decide

O período entre a pesagem e a luta é onde o corte se paga ou se cobra. Três prioridades, nessa ordem: repor líquido com sódio junto (água pura sozinha passa direto e vira xixi), repor carboidrato com comida de fácil digestão, e comer em porções pequenas e frequentes em vez de um banquete único. E nada de testar comida nova em dia de luta: o intestino também compete.

Quando o corte é sinal de categoria errada

Se pra bater o peso você precisa cortar mais de 8 a 10%, ou se vive emendando um corte atrás do outro na temporada, o problema deixou de ser o método. É a categoria. Lutador desidratado, fraco e irritado na categoria de baixo rende menos que lutador forte e inteiro na categoria de cima. Essa troca de categoria já decidiu mais resultado do que muita periodização por aí.

Perguntas frequentes sobre corte de peso

Corte de peso faz mal à saúde?

Depende do tamanho e do método. Cortes de até 5% do peso, feitos com planejamento e com tempo de recuperação, são administráveis pra atleta saudável. Cortes grandes à base de desidratação sobrecarregam rins e coração, derrubam o rendimento e já causaram mortes no esporte. Respeito pelo método salva luta e salva atleta.

Quanto peso dá pra cortar com segurança?

De gordura, entre 0,5 e 1% do peso por semana, ao longo de 8 a 12 semanas. De corte agudo na última semana, até uns 5% do peso quando existe um dia ou mais de recuperação após a pesagem. Com pesagem na hora, como no jiu-jitsu, o ideal é já estar no peso.

Sauna e roupa de plástico funcionam?

O que sai ali é água, e ela volta na primeira reidratação. Como recurso pontual de emergência, dentro de um plano e com supervisão, existe espaço técnico. Como método principal de corte, é a receita clássica do atleta que bate o peso e rende pouco.

Com quanta antecedência devo começar o corte?

De 8 a 12 semanas antes da competição. Esse prazo permite descer de gordura no ritmo seguro, manter treino forte e chegar na última semana precisando de ajuste fino, e de mais nada.

Corte de peso é uma das faces mais técnicas da nutrição esportiva. Se você quer entender o quadro maior, veja o que é nutrição esportiva e onde ela ajuda.

Corte de peso bem feito começa semanas antes, com número na mesa e plano por escrito. Se você compete jiu-jitsu ou MMA e quer fazer isso acompanhado, conhece meu acompanhamento para atletas de luta ou me chama direto no WhatsApp, aqui na Barra da Tijuca. A gente monta seu corte com antecedência, sem desespero de última semana.

Referências

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