
Emagrecer 15 quilos no Ozempic e comemorar o número da balança esconde um detalhe importante: uma boa parte desse peso pode não ser gordura. A perda de massa muscular no Ozempic e no Mounjaro é real, já tem meta-análise medindo o tamanho do problema, e dá pra evitar boa parte dela com uma estratégia simples.
Resumo
- A massa magra responde por 25% a 39% do peso perdido com essas medicações, conforme uma meta-análise de 20 estudos randomizados com 15.782 pessoas.
- Somando treino de força ao emagrecimento, essa fatia cai para 17,5%, o melhor resultado entre as estratégias avaliadas.
- Em 68 a 72 semanas de tratamento, participantes de estudos perderam 10% ou mais da massa muscular, algo próximo do que se perde em cerca de 20 anos de envelhecimento.
Por que o Ozempic e o Mounjaro tiram músculo junto com a gordura
Uma meta-análise publicada em 2026 na Diabetes, Obesity and Metabolism reuniu 20 estudos randomizados e 15.782 pessoas para medir exatamente quanto do peso perdido era massa magra. O resultado ficou entre 25% e 39%, variando conforme a medicação: 35,2% com semaglutida, 25,4% com tirzepatida e 26,8% com liraglutida (Eisa e Barood, 2026). O motivo é simples: a pessoa come muito menos, e quando o corpo recebe menos proteína e menos estímulo, ele não distingue direito de onde tirar energia. Puxa de gordura, mas puxa de músculo também.
Tem um detalhe nessa mesma meta-análise que quase ninguém comenta: quem emagreceu só com mudança de estilo de vida, sem medicação, perdeu massa magra na mesma proporção, 26,2%. Emagrecer cobra esse preço com ou sem caneta.
Isso acontece igual no Ozempic e no Mounjaro?
Em proporção do peso perdido, a semaglutida (Ozempic) apareceu com a fatia maior de massa magra nessa meta-análise, 35,2% contra 25,4% da tirzepatida (Mounjaro). Vale ler com cuidado, porque outra meta-análise, com 22 estudos, colocou as duas entre as menos eficazes em preservar massa magra justamente por serem as que mais fazem perder peso (Karakasis e colaboradores, 2025).
No SURMOUNT-1, que mediu composição corporal por DXA em 72 semanas, quem usou tirzepatida perdeu 21,3% do peso, 33,9% da gordura e 10,9% da massa magra, o que dá aproximadamente 75% de gordura e 25% de massa magra do total perdido (Look e colaboradores, 2025). Na prática, escolher entre uma caneta e outra pensando em músculo resolve pouco. O que decide é o que você faz junto com ela.
Por que isso piora com o tempo
Uma revisão da Obesity Reviews estimou que participantes de estudos clínicos com essas medicações perderam 10% ou mais da massa muscular ao longo de 68 a 72 semanas, quantidade próxima do que a pessoa perderia em cerca de 20 anos de envelhecimento (Mechanick e colaboradores, 2025). O tratamento costuma ser longo, e é aí que a conta pesa: cada mês comendo pouco e sem estímulo de força vai cobrando um pedaço.
O que realmente evita a perda de massa muscular
A meta-análise de 2026 também mediu o cenário com treino de força somado ao emagrecimento. Ali a massa magra caiu para 17,5% do peso perdido, o melhor perfil entre todas as estratégias comparadas (Eisa e Barood, 2026). Ou seja, a mesma perda de peso pode custar menos da metade do músculo, dependendo do que entra na rotina.
O consenso de 2026 da EASO, da EFAD e da ECPO, publicado no Lancet Diabetes & Endocrinology, aponta na mesma direção: proteína adequada e exercício resistido progressivo para preservar massa livre de gordura e função física durante o tratamento (Dobbie e colaboradores, 2026). A revisão da Obesity Reviews recomenda a mesma dupla, com atenção à qualidade da proteína e aos micronutrientes, já que a pessoa está comendo bem menos no total.
A quantidade que sustenta isso, segundo o posicionamento da ISSN sobre proteína e exercício, fica entre 1,6 e 2,2g por quilo de peso por dia, divididos em porções de 20 a 40g por refeição. Pra uma pessoa de 80kg, isso dá algo entre 128g e 176g de proteína no dia, espalhados a cada 3 ou 4 horas. Com a caneta cortando a fome, bater esse número exige prioridade: proteína primeiro no prato, antes do resto.
Dá para recuperar o músculo perdido depois de parar a medicação?
Dá, mas não é automático. O músculo responde a treino de força e a proteína suficiente, com ou sem GLP-1 na equação. Quem parou a medicação e voltou a treinar com carga progressiva e proteína adequada recupera parte relevante da massa perdida ao longo de alguns meses, no mesmo processo que qualquer pessoa usa para ganhar massa muscular do zero. O que não existe é atalho: sem estímulo de treino, o músculo não volta sozinho só porque a medicação parou. Enquanto essa massa está baixa, a disposição sente junto, e eu tratei disso em Mounjaro dá sono. E vale lembrar que a saída da medicação tem um segundo problema junto, o peso que volta, que eu tratei em efeito rebote do Mounjaro.
O Mounjaro faz perder gordura ou massa magra?
Perde os dois ao mesmo tempo, e a pergunta útil é em que proporção. Todo emagrecimento tira alguma massa magra junto, inclusive o feito só com dieta. O que muda com a medicação é a velocidade da perda, e velocidade é justamente o que empurra essa fatia para cima.
Os números da meta-análise dão a dimensão: de 25% a 39% do peso perdido vem da massa magra, conforme o remédio. Numa perda de 12 quilos, isso significa algo entre 3 e 4,7 quilos que não são gordura.
Vale entender o que entra nessa conta de massa magra. Ela não é só músculo. Água corporal, glicogênio e conteúdo intestinal aparecem todos ali, e uma parte da queda das primeiras semanas é exatamente isso. O que preocupa de verdade é a fatia de músculo, e ela se separa das outras pela composição corporal feita em intervalos, não por uma pesagem só.
Dá para ganhar massa muscular tomando Mounjaro?
Dá, e é mais difícil do que em qualquer outra situação. Ganhar músculo exige dois ingredientes que a medicação torna escassos: proteína suficiente e energia sobrando.
Para a maioria das pessoas, o objetivo que cabe nesse período é preservar o músculo que já existe. Construir massa nova pede energia sobrando, e quem está comendo bem menos por causa do remédio raramente tem essa sobra. Perseguir as duas coisas ao mesmo tempo costuma render frustração.
Existe uma exceção que aparece com alguma frequência: quem nunca treinou força na vida e começa agora costuma ganhar algum músculo mesmo em déficit, principalmente nos primeiros meses. É um período de janela, e ele se fecha conforme a pessoa fica treinada.
Na prática, o que decide isso são três coisas. Proteína entre 1,6 e 2,2 gramas por quilo de peso por dia, treino de força pelo menos duas a três vezes por semana com carga que evolui, e uma perda de peso em ritmo que não passe de 1% do peso por semana.
Como recuperar massa magra durante o tratamento
Muita gente chega quando o estrago já apareceu na composição corporal, e quer saber se dá para voltar atrás sem parar o remédio. Dá para melhorar bastante, sim.
O primeiro ajuste costuma ser o mais simples e o mais ignorado: garantir a proteína dentro de um volume pequeno de comida. Quando só cabem três refeições miúdas no dia, a proteína precisa vir concentrada em cada uma delas, o que muda bastante a escolha dos alimentos. É aqui que whey, ovo, iogurte grego e carne magra passam na frente de coisas que ocupam muito espaço e entregam pouco.
O segundo é o treino de força com carga progressiva. Caminhada e esteira mantêm o coração e o gasto do dia em ordem. O estímulo que faz o corpo decidir segurar músculo vem de carga, de um peso que exige força para sair do lugar.
O terceiro é a velocidade. Se a balança está descendo mais de 1% do peso por semana de forma sustentada, a conta da massa magra piora. Segurar o ritmo, comendo um pouco mais, costuma proteger mais músculo do que qualquer suplemento.
Visão do Pet
O remédio faz o que promete. O buraco aparece quando ele entra sozinho, sem nenhum ajuste na alimentação e no treino, como se o corpo fosse descontar peso de qualquer lugar sem custo. Quem come pouco e não treina força perde músculo. Quem come pouco, treina força e prioriza proteína, preserva a maior parte dele. A diferença entre 17% e 39% do peso perdido em massa magra está exatamente nesse ajuste. O ritmo da balança também entra na conta, e eu tratei disso em quantos quilos o Mounjaro emagrece por mês.
No consultório eu trabalho com proteína acima de 1,2g por quilo de peso por dia, bem distribuída ao longo das refeições, e treino de força na semana toda. Pra ver como encaixar isso no prato, com cardápio de um dia e o que evitar no enjoo, tem o guia sobre o que comer tomando Mounjaro.
Se você usa ou pensa em usar essas canetas e quer perder gordura sem perder músculo, conheça o acompanhamento nutricional clínico e o acompanhamento para emagrecimento.
Perguntas frequentes
O Mounjaro faz perder gordura ou massa magra?
Perde os dois ao mesmo tempo. Nos estudos, de 25% a 39% do peso perdido vem da massa magra, conforme a medicação. Parte disso é água, glicogênio e conteúdo intestinal, principalmente nas primeiras semanas, e a fatia que preocupa é a de músculo, que aparece na composição corporal feita em intervalos.
Dá para ganhar massa muscular tomando Mounjaro?
É possível, mas difícil, porque ganhar músculo exige proteína suficiente e energia sobrando, duas coisas que a medicação torna escassas. Para a maioria, o objetivo realista é preservar o que já tem. Quem nunca treinou força costuma ganhar algum músculo mesmo em déficit nos primeiros meses.
Como recuperar a massa magra perdida com Mounjaro?
Concentrar proteína em cada uma das refeições pequenas que cabem no dia, treinar força com carga progressiva pelo menos duas a três vezes por semana, e segurar a velocidade da perda abaixo de 1% do peso por semana. Caminhada sozinha não dá o estímulo que faz o corpo preservar músculo.
Como não perder massa magra tomando tirzepatida?
Tirzepatida é a substância do Mounjaro, então valem as mesmas medidas: proteína entre 1,6 e 2,2 gramas por quilo de peso por dia, treino de força com carga que evolui e ritmo de perda que não passe de 1% do peso por semana.
Quanto de músculo se perde tomando Ozempic ou Mounjaro?
Nos estudos, a massa magra responde por 25% a 39% do peso perdido, dependendo da medicação. Essa fatia varia bastante conforme a alimentação e o treino da pessoa durante o tratamento.
Ozempic ou Mounjaro, qual preserva mais músculo?
Em proporção do peso perdido, a tirzepatida (Mounjaro) apareceu com fatia menor de massa magra que a semaglutida (Ozempic) na meta-análise de 2026, 25,4% contra 35,2%. Como o Mounjaro faz perder mais peso no total, a diferença em quilos de músculo fica menor do que essa conta sugere, e o que mais muda o resultado é treino de força com proteína suficiente.
Quanta proteína preciso comer usando GLP-1?
O posicionamento da ISSN sobre proteína e exercício recomenda entre 1,6 e 2,2g por quilo de peso por dia, em porções de 20 a 40g por refeição. No consultório, uso essa faixa como referência e ajusto conforme o caso, sempre com proteína adequada somada a treino de força progressivo.
Só a proteína já resolve, ou precisa treinar também?
Os melhores resultados de preservação de massa magra vieram da combinação de proteína suficiente com treino de força. Ajustar só a proteína, sem estímulo de treino, protege menos.
Dá para recuperar o músculo perdido depois de parar o Ozempic ou o Mounjaro?
Dá, mas exige treino de força e proteína suficiente, no mesmo processo usado para ganhar massa muscular do zero. Não existe recuperação automática só por interromper a medicação.
Leia também: se a dúvida é quanto comer de proteína pra não perder massa nesse processo, o post proteína demais atrapalha o ganho de massa? ajuda a calibrar isso, e quantas calorias preciso comer pra emagrecer explica por que não existe número fixo em nenhum desses processos. Pra acompanhar quanto do peso perdido é gordura, a calculadora de percentual de gordura ajuda a medir isso em casa com fita métrica. E se o cabelo começou a cair no processo, expliquei o papel da nutrição na queda de cabelo com Mounjaro.
Se você está usando ou pensando em usar Ozempic ou Mounjaro e quer um plano que proteja sua massa muscular durante o processo, dá pra conversar direto comigo pelo WhatsApp. Atendo presencial aqui na Barra da Tijuca e online.
Referências
- Jäger R e colaboradores. International Society of Sports Nutrition Position Stand: protein and exercise. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 2017. Acessado em 07/08/2026.
- Eisa N e Barood O. Lean Mass Changes With Incretin Therapy Versus Lifestyle Intervention: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomised Controlled Trials. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2026. Acessado em 26/07/2026.
- Karakasis P e colaboradores. Effect of glucagon-like peptide-1 receptor agonists and co-agonists on body composition: Systematic review and network meta-analysis. Metabolism, 2025. Acessado em 26/07/2026.
- Look M e colaboradores. Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in the SURMOUNT-1 study of adults with obesity or overweight. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2025. Acessado em 26/07/2026.
- Mechanick JI e colaboradores. Strategies for minimizing muscle loss during use of incretin-mimetic drugs for treatment of obesity. Obesity Reviews, 2025. Acessado em 26/07/2026.
- Dobbie LJ e colaboradores. Nutritional, functional, and psychological considerations for incretin-based therapies in adults: an EASO, EFAD, and ECPO Consensus Statement. The Lancet Diabetes & Endocrinology, 2026. Acessado em 26/07/2026.