Peterson MendesPeterson MendesAgendar consulta
Dois copos de cerveja sobre uma mesa de madeira em um bar com luz quente

Sábado, churrasco marcado, e a caneta foi aplicada na quinta. A pergunta chega assim, sempre com um evento no meio do caminho: quem toma Mounjaro pode beber? Vou responder a parte que cabe a mim, que é o que o álcool faz com a sua glicemia e com o seu estômago nesse contexto. Bula, interação e risco clínico ficam com o médico que prescreveu.

Onde termina a minha resposta e começa a do médico

A bula do Mounjaro não traz proibição direta ao álcool. Isso quer dizer que a decisão é individual e passa pelo seu médico, porque envolve dose, histórico de pâncreas, uso de outros remédios e um monte de coisa que fica fora da alçada de qualquer nutricionista. Sou o Peterson Mendes, nutricionista esportivo na Barra da Tijuca, e o que eu consigo te explicar bem é por que a mesma taça de vinho que passava batido antes agora derruba você.

Beber de estômago vazio é o pior cenário possível

Quando o álcool entra, o fígado para de fabricar glicose para dar conta de metabolizar o etanol (Freinkel e colaboradores, 1967). Em quem come normal isso raramente vira problema, porque tem comida chegando e estoque no fígado. Só que com Mounjaro você está comendo bem menos, às vezes uma refeição por dia sem perceber. Aí o estoque está baixo, o fígado está travado pelo álcool, e a glicemia cai. Tontura, tremor, suor frio, coração acelerado.

Na prática o que eu oriento é comer antes, com proteína e carboidrato no prato, e nunca abrir a primeira bebida em jejum. Água no meio ajuda bastante. Vale contar com o fato de que o efeito chega mais forte do que você lembra, então dá para parar mais cedo do que costumava.

Por que a bebida derruba mais gente do que a comida

O Mounjaro atrasa o esvaziamento do estômago, e essa é parte do motivo pelo qual você sente saciedade rápido (Jalleh e colaboradores, 2024). O estômago demora mais para esvaziar, e o álcool é irritante de mucosa. Somando os dois, o enjoo e a azia que já são a queixa mais comum da fase de ajuste de dose ficam bem piores. Quem passa mal na noite costuma achar que exagerou na quantidade, quando muitas vezes bebeu o mesmo de sempre num estômago que agora funciona em outro ritmo.

A conta calórica que quase ninguém faz

Uma long neck tem por volta de 140 calorias. Cinco delas passam de 700. Numa pessoa que está comendo 1.200 calorias por dia por causa da medicação, isso representa mais da metade do dia em bebida, sem proteína nenhuma junto. O estrago aparece aí, porque a proteína é o que segura a massa muscular enquanto o peso cai, e eu já expliquei essa conta em detalhe no post sobre Ozempic, Mounjaro e perda de músculo. Um fim de semana de bebida numa semana de pouca comida entrega peso na balança e músculo perdido junto.

Quem toma Mounjaro pode tomar energético?

Essa é a pergunta que mais chega neste assunto, e ela merece uma resposta melhor que sim ou não.

O energético junta duas coisas que conversam mal com a medicação. A primeira é a cafeína em dose alta, que aumenta a acidez e relaxa a válvula entre o estômago e o esôfago. Como o Mounjaro já deixa o estômago esvaziando mais devagar, a comida fica parada mais tempo, e esse conjunto favorece queimação e refluxo. Quem já sente enjoo costuma sentir mais.

A segunda é a caloria líquida. Uma lata de energético comum tem por volta de 110 a 160 calorias em açúcar, que descem sem ocupar espaço e sem tirar fome. No tratamento, o espaço no estômago virou um recurso escasso, e gastar esse espaço com bebida açucarada é abrir mão da proteína que segura o seu músculo.

Se for tomar, a versão zero resolve a parte calórica, mas mantém a cafeína. Longe do horário da aplicação e nunca de estômago vazio é o cenário menos ruim.

Refrigerante, isotônico e cerveja sem álcool

O refrigerante tem um problema extra que quase ninguém liga ao tratamento: o gás. Distensão e estufamento já estão entre as queixas mais comuns de quem usa a medicação, e uma bebida gaseificada entra jogando gás num estômago que está lento. A versão zero resolve o açúcar e mantém o gás.

O isotônico do tipo Gatorade foi feito para repor sódio e carboidrato em treino longo e suado. Quem está caminhando, treinando musculação uma hora por dia ou parado não tem o que repor, então ele vira só açúcar líquido. Faz sentido em treino intenso e prolongado no calor, e faz pouco sentido no sofá.

A cerveja sem álcool costuma entrar na conta como se fosse água. Ela tira o problema do álcool, mas continua sendo líquido com gás e com carboidrato, então mantém o estufamento. Como alternativa social ela funciona bem, e vale contar as calorias dela como conta as de qualquer outra coisa.

Quem toma Mounjaro precisa beber mais água?

Precisa prestar mais atenção, sim, e tem um motivo que passa despercebido. Boa parte da água que a gente ingere no dia entra pela comida, na fruta, no arroz, no feijão, na sopa. Comendo bem menos, essa entrada cai junto, mesmo que você continue bebendo a mesma quantidade de líquido de antes.

Some a isso os episódios de enjoo e de vômito, que tiram água e sódio, e você tem o terreno pronto para a constipação, que é uma das queixas mais frequentes do tratamento. Intestino preso, nessa situação, costuma ser mais falta de água e de fibra do que qualquer outra coisa.

Uma referência prática que funciona bem é distribuir a água ao longo do dia em vez de tentar beber muito de uma vez, porque volume grande de líquido num estômago lento dá sensação de empachamento e faz a pessoa desistir. Beber fora das refeições ajuda a não ocupar o espaço que a comida precisa.

Tudo que está aqui vale igual para quem usa tirzepatida com outro nome comercial, já que a substância é a mesma.

Uma coisa curiosa: a vontade de beber costuma cair sozinha

Tem um achado interessante nessa história. Um estudo publicado na Scientific Reports acompanhou 153 pessoas usando semaglutida ou tirzepatida e encontrou queda significativa no consumo de álcool, com relato de menos vontade de beber (Quddos e colaboradores, 2023). O mesmo mecanismo que mexe no apetite parece mexer na vontade de beber. Muita gente percebe isso na prática, para na segunda taça sem esforço e estranha. É um efeito colateral que joga a favor.

Visão do Pet

Se a sua rotina inteira depende de beber no fim de semana, o problema que vai aparecer quando a medicação acabar já está avisando agora. A caneta segura o apetite por um tempo, e o que você construir de hábito nesse período é o que sobra depois, assunto que eu tratei no post sobre efeito rebote do Mounjaro. Beber de vez em quando, com comida no estômago e com o aval do seu médico, cabe bem dentro de um tratamento. O que costuma cobrar caro é manter o mesmo consumo de antes num corpo que agora come metade. Vale lembrar que comer pouco demais já derruba a disposição sozinho, assunto de Mounjaro dá sono.

Para montar o prato do dia a dia durante o tratamento, tem o guia de o que comer tomando Mounjaro.

Perguntas frequentes

Quem toma Mounjaro pode tomar energético?

Não existe proibição, mas o energético conversa mal com o tratamento. A cafeína em dose alta favorece queimação e refluxo num estômago que já esvazia devagar, e a versão açucarada acrescenta de 110 a 160 calorias líquidas que não tiram fome. Se for tomar, prefira longe do horário da aplicação e nunca de estômago vazio.

Pode tomar refrigerante tomando Mounjaro?

O maior problema do refrigerante no tratamento é o gás, porque distensão e estufamento já são queixas comuns de quem usa a medicação. A versão zero resolve o açúcar e mantém o gás.

Quem toma Mounjaro pode tomar Gatorade ou isotônico?

O isotônico foi feito para repor sódio e carboidrato em treino longo e suado. Sem esse gasto, ele funciona como açúcar líquido, ocupando um espaço no estômago que faz falta para a proteína.

Cerveja sem álcool pode para quem toma Mounjaro?

Ela tira o problema do álcool, mas continua sendo líquido com gás e carboidrato, então mantém o estufamento. Como alternativa social funciona, desde que as calorias entrem na conta do dia.

Quem toma Mounjaro tem que beber muita água?

Precisa de mais atenção com a água. Boa parte do líquido do dia entra pela comida, e comendo bem menos essa entrada cai junto. Com enjoo e vômito somados, o risco de constipação aumenta. Distribuir a água ao longo do dia e beber fora das refeições funciona melhor que tomar muito de uma vez.

Quem toma Mounjaro pode beber cerveja?

Pode, com o aval do seu médico, e sempre com comida no estômago. O cuidado maior é a quantidade: cada long neck tem cerca de 140 calorias sem proteína nenhuma, e quem está comendo pouco por causa da medicação enche o dia de caloria vazia com facilidade. Beber em jejum é o cenário que mais dá tontura e mal estar.

Quanto tempo depois de aplicar o Mounjaro posso beber?

Não existe janela oficial, porque a tirzepatida fica no corpo a semana inteira. O que costuma fazer diferença é o momento do ciclo: nos dias seguintes à aplicação, e principalmente depois de subir a dose, o enjoo está no pico e a tolerância ao álcool fica pior. Quem quer beber costuma passar melhor no fim do intervalo entre as doses.

O álcool atrapalha o emagrecimento com Mounjaro?

Atrapalha por dois caminhos. Ele entra como caloria líquida num dia que já está com pouca comida, e ocupa o espaço que deveria ser de proteína, o nutriente que protege a massa muscular durante a perda de peso. O resultado costuma ser um emagrecimento com mais perda de músculo do que o necessário.

Bebida sem álcool pode?

Pode, e resolve a parte da glicemia e do fígado. Fica valendo olhar o rótulo, porque várias versões sem álcool têm açúcar parecido com o do refrigerante, e o volume de líquido com gás sozinho já incomoda quem está com o estômago lento.

Referências

  • Quddos F, Hubshman Z, Tegge A, et al. Semaglutide and Tirzepatide reduce alcohol consumption in individuals with obesity. Scientific Reports, 2023. PMID 38017205
  • Jalleh RJ, Plummer MP, Marathe CS, et al. Clinical Consequences of Delayed Gastric Emptying With GLP-1 Receptor Agonists and Tirzepatide. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2024. PMID 39418085
  • Freinkel N, Arky RA, Singer DL, et al. Ethanol-induced hypoglycemia. II. Mechanism of suppression of hepatic gluconeogenesis. Diabetes, 1967. PMID 4290244

Foto de capa: Fernando B. M. no Pexels.

Se você está usando Mounjaro e quer organizar a alimentação para não perder músculo no caminho, me chame no WhatsApp e a gente marca sua consulta aqui na Barra da Tijuca.

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