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Homem fazendo o teste da pinça na gordura da barriga

Existem duas gorduras diferentes na região da barriga, e elas se comportam de formas distintas no corpo. A que você pinça com os dedos é a subcutânea. A que fica mais fundo, envolvendo os órgãos, é a visceral. Entender a diferença entre gordura visceral e subcutânea muda o que você acompanha e o que você prioriza.

Resumo

  • Subcutânea fica sob a pele e dá pra pinçar. Visceral fica dentro do abdome, em volta dos órgãos.
  • As duas têm diferenças estruturais e funcionais descritas na literatura.
  • A visceral drena direto para o fígado, e é a que mais se associa a alteração metabólica.
  • Num estudo de Framingham, mais gordura subcutânea apareceu associada a triglicerídeos mais baixos entre homens com gordura visceral alta.
  • Peso normal com percentual de gordura alto aumentou as chances de síndrome metabólica em 92%.

A diferença entre gordura visceral e subcutânea

A gordura subcutânea fica na camada logo abaixo da pele, distribuída pelo corpo inteiro, e é a que você consegue segurar entre os dedos na barriga, no braço ou na coxa. A gordura visceral fica dentro da cavidade abdominal, envolvendo fígado, intestino e pâncreas, e nenhuma pinça alcança ela. Além do endereço, os dois tecidos diferem em estrutura e função, com perfis distintos de células, irrigação sanguínea e substâncias liberadas na circulação, e isso já foi revisado em detalhe na literatura (Ibrahim, 2010). Sou o Peterson Mendes, nutricionista esportivo na Barra da Tijuca, e na avaliação essa distinção define se a conversa vai ser sobre estética ou sobre risco metabólico.

Por que a visceral pesa mais no risco

O mecanismo mais citado é o endereço da drenagem. A gordura visceral libera ácidos graxos e substâncias inflamatórias direto no sistema porta, que é a via que leva sangue do intestino para o fígado. Ou seja, o que sai desse tecido chega concentrado ao fígado antes de se diluir no resto da circulação. Isso ajuda a explicar por que gordura visceral alta anda junto com resistência à insulina, triglicerídeos elevados e acúmulo de gordura no fígado. A gordura subcutânea drena pela circulação geral, de forma mais diluída.

A subcutânea carrega fama pior do que merece

Aqui vem a parte contraintuitiva. Pesquisadores do estudo de Framingham analisaram 3.001 participantes, separando por níveis de gordura visceral e, dentro de cada nível, por níveis de gordura subcutânea. Entre os homens do grupo com gordura visceral mais alta, ter mais gordura subcutânea apareceu associado a menos casos de triglicerídeos elevados, caindo de 64,4% no menor nível de subcutânea para 52,7% no maior. Os autores concluem que a gordura subcutânea abdominal não se associa a um aumento linear na prevalência de todos os fatores de risco entre pessoas com obesidade (Porter e colaboradores, 2009).

A leitura prática disso é interessante: a hipótese levantada pelos pesquisadores é que a gordura subcutânea funciona como um reservatório seguro. Quando o corpo tem onde guardar o excedente sob a pele, sobra menos para se acumular em lugares problemáticos. Isso deixa claro que a quantidade total de gordura conta, e a distribuição dela conta junto.

Magro por fora, alterado por dentro

Uma revisão sistemática com meta-análise reuniu 25 estudos e 177.792 participantes para avaliar o que os autores chamam de obesidade com peso normal, definida como IMC normal acompanhado de percentual de gordura alto. Comparadas a pessoas de peso normal sem esse perfil, elas apresentaram chances maiores de várias alterações (Mohammadian Khonsari e colaboradores, 2022):

  • Síndrome metabólica: 92% mais chance
  • Triglicerídeos altos: 90% mais chance
  • Dislipidemia: 83% mais chance
  • Glicemia alterada: 50% mais chance
  • Hipertensão: 40% mais chance
  • Diabetes: 39% mais chance

Os autores encerram apontando a insuficiência do IMC como medida isolada e a necessidade de avaliar a gordura corporal. É o retrato de quem se considera magro porque a balança concorda, e tem alterações no exame de sangue que ninguém explicou.

Como saber qual é a sua

Sem exame de imagem não dá para separar as duas com precisão, mas alguns sinais orientam bem:

  • Teste da pinça. Se sobra bastante tecido macio entre os dedos, o componente subcutâneo é grande. Barriga firme e projetada, com pouca coisa para pinçar, sugere mais componente visceral.
  • Circunferência da cintura. É a medida prática que melhor acompanha gordura visceral, e mostrei o passo a passo em como medir a circunferência abdominal.
  • Cintura dividida pela altura. Mantendo abaixo de 0,5.
  • Exames de sangue. Triglicerídeos, glicemia e HDL contam bastante sobre o que está acontecendo por dentro.

Se a sua balança de bioimpedância dá um índice de gordura visceral, expliquei o quanto confiar nele em gordura visceral ideal. E o panorama completo do assunto está no guia sobre gordura visceral.

Visão do Pet

No consultório essa diferença aparece o tempo todo em duas pessoas opostas. Uma tem bastante gordura para pinçar, se incomoda com a estética e chega achando que a saúde está péssima, quando os exames voltam bons. Outra é magra, veste manequim pequeno, e chega com triglicerídeos e glicemia alterados sem entender o motivo. As duas precisam de coisas diferentes. Por isso eu meço cintura em toda primeira consulta, mesmo em quem está dentro do peso. O IMC responde uma pergunta que quase nunca é a que interessa.

Peterson Mendes, nutricionista esportivo (CRN 15101107), Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre gordura visceral e subcutânea?

A subcutânea fica na camada logo abaixo da pele e pode ser pinçada com os dedos. A visceral fica dentro da cavidade abdominal, envolvendo fígado, intestino e pâncreas. Além da localização, os dois tecidos têm diferenças estruturais e funcionais, e a visceral drena direto para o fígado pelo sistema porta.

Qual das duas é mais perigosa?

A visceral é a que mais se associa a resistência à insulina, triglicerídeos elevados e gordura no fígado, por causa da drenagem direta para o fígado e do perfil de substâncias que libera.

A gordura subcutânea faz mal?

Em excesso ela acompanha o aumento do peso total e do risco geral. Mas num estudo de Framingham, entre homens com gordura visceral alta, ter mais gordura subcutânea apareceu associado a menos casos de triglicerídeos elevados, o que sugere que ela funciona como um reservatório mais seguro para o excedente de energia.

Dá para ser magro e ter gordura visceral alta?

Dá. Numa meta-análise com quase 178 mil pessoas, quem tinha IMC normal com percentual de gordura alto apresentou 92% mais chance de síndrome metabólica e 90% mais chance de triglicerídeos elevados do que pessoas de peso normal sem esse perfil.

Como diferenciar as duas em casa?

Pelo teste da pinça somado à circunferência da cintura. Muito tecido macio entre os dedos indica componente subcutâneo alto, enquanto barriga firme e projetada com cintura aumentada sugere mais gordura visceral.

Se você quer saber qual é o seu caso e o que priorizar a partir disso, dá pra conversar comigo pelo WhatsApp. Atendo presencial na Barra da Tijuca e online.

Referências

Foto de capa: Kaboompics no Pexels.

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